A Função do Amigo. Uma tensão desejante II. Uma conversa germinal. Tradução de Yanina Juárez.


Este texto é uma tradução de A Função do Amigo. Uma tensão desejante II. Uma conversa germinal..  Tradução de Yanina Juárez.


Uma conversa germinal

Comecemos pela origem e suas variações. A origem foi o episódio da cocaína. A origem foi a autoanálise. A origem foi a análise onde Fliess encarnou o “sujeito suposto saber” para Freud. A origem foi o saber do delírio de Freud e o delírio do saber de Fliess. A origem foi o encontro de Freud com as histéricas. A origem foi a injeção da linguagem na carne e a solução da palavra. Mas, por que não nos darmos a oportunidade de pensar que a pedra angular da psicanálise foi a prática da amizade? Por que não propor que sua originalidade surgiu em uma zona liminar onde nome e identidade se tornam inatingíveis?


O problema da origem


Falar da origem é entrar no reino da ficção. Não existe uma origem pura, um fato acessível em sua imediatez. A origem é uma construção narrativa, uma fábula que revela mais sobre as urgências, os desejos e as mediações do presente do que sobre o suposto acontecimento fundacional.


Cada época, cada ética, cada nova leitura, rearticula a origem, investe-a de outros significados, reconfigura-a num ato que é, ao mesmo tempo, de criação e de interpretação.


Essa ficcionalização constitutiva da origem, longe de ser uma falsidade, é a própria condição de possibilidade da história e da memória. É uma performatividade que desdobra uma teoria e uma prática do tempo.

As narrativas mudam, transformam-se, mais ainda quando medeiam saltos temporais e desconexões espaciais. Não há um retorno literal à origem. O que há é uma presentificação do passado, uma constante reimaginação daquilo que traça novas conexões.

Mas as ficções em nenhum caso deveriam ser abraçadas com um entusiasmo acrítico ou fervor ingênuo. Os poderes da narratividade não são neutros; entranham a ameaça de desvincular a história e a memória de seus fundamentos de veridicção. E, além de incidir no que já se dava por certo, também ocasionam efeitos no futuro, independentemente de se quem se entrega ao ato da ficção não o faça de maneira profusa e tendenciosa.


Proponho aqui uma ficcionalização crítica que não busca «aliviar a dor» da perda da origem prístina. Busca, antes, modos de encontro que permitam à narrativa reinventar-se, reconhecer as mediações que operam desde o «primeiro evento» até o presente em um tecido de sequências que se dobram e expandem através de múltiplas temporalidades. Esse processo implica, por necessidade, um corte. Um corte no antes e um corte no agora. Um corte que possibilita a metamorfose, a conversão «do que foi» em «o que poderia ser».
Não se trata de fixar o «verdadeiro» ou o «falso» como verdades absolutas, mas de catapultar uma leitura do passado para o presente e o futuro.

O oculto, o reprimido, o não dito, ativa-se na invenção de novas narrativas. São conferidas a mundos que, sob os interesses e parâmetros de poder vigentes, estavam condenados a não existir ou permaneciam ainda não nascidos.


A origem, então, revela-se como um campo de relações de ficção no interstício do «agora» e do «ainda não». Essas relações são ativações de uma memória histórica que estava latente, à espera de ser mobilizada. Os movimentos discursivos, nesse sentido, operam um corte na memória coletiva e atualizam o acontecimento a partir de novas perguntas, de novas necessidades.


A história das cartas entre Freud e Fliess, portanto, adquire uma relevância iniludível. Permitem-nos decifrar as tensões e controvérsias que circundaram o nascimento da psicanálise, mas também as leituras enviesadas pelo sigilo e pela censura. E, mais ainda, a pluralidade de vozes que nelas ressoam, às vezes em franca contradição .As distintas interpretações dessas cartas revelam que toda leitura é condicionada pela sintaxe crítica que lhe outorga significado, pelo prisma a partir do qual se aborda o texto. Nenhum arquivo é uma janela transparente; qualquer pretensão de transparência encobre uma leitura que aspira à hegemonia, a impor-se como única e a congelar o sentido em uma concepção linear do tempo. Em outras palavras, uma leitura que erige um discurso dogmático onde, por conseguinte, a função dx amigx não tem cabimento nem em sua estrutura teórica nem em sua práxis.

A correspondência


Oito anos após o falecimento de Fliess, e três anos após a chegada de Hitler ao poder, no final de 1936, Marie Bonaparte recebe a proposta de um comerciante de arte a quem um dos filhos de Fliess vendeu as cartas de Freud. Antes, a família Fliess havia considerado doá-las à Biblioteca de Berlim, mas, diante da iminente queima dos livros de Freud, optaram pela venda. Freud, ao saber, manifesta seu desejo de adquiri-las. No entanto, a princesa declina a oferta. Seu argumento era firme: as cartas e manuscritos lhe haviam sido confiados sob a expressa condição de não os vender a membro algum da família Freud – nem direta nem indiretamente. Pesava o temor da destruição daquele material, crucial para a história da psicanálise. Em um ato de audácia, Bonaparte consegue subtraí-las de um cofre em Viena, desafiando o olhar da Gestapo, para depositá-las na delegação da Dinamarca em Paris, e reencontrar-se com elas somente em Londres, em 1945. Uma história digna de um filme de espiões!


A primeira edição das cartas (1950 em alemão, 1954 em inglês, 1956 em francês) viu a luz com apenas 168 missivas. Essas cartas foram mutiladas; foram extirpadas as passagens que atentavam contra a discrição médica ou pessoal, assim como aquelas onde se evidenciava o esforço de Freud por assimilar as teorias científicas de Fliess, os intrincados cálculos de períodos elaborados por Fliess, certas circunstâncias familiares e, por fim, incidentes ocorridos no círculo de seus próximos. Somente 35 anos depois, em 1985, publicou-se a versão integral das cartas, tanto em número quanto em conteúdo. E apenas as de Freud para Fliess. Das de Fliess para Freud, mal podemos aceder a duas ou três, já que este as fez desaparecer, e estas poucas são as que aquele apresentou como prova na causa por plágio.


Em resposta a Marie Bonaparte, que lhe comunica sua aquisição da correspondência a Fliess em uma missiva datada de 3 de janeiro de 1937, Freud declara-se «chocado» e expressa algo similar a: «Não gostaria que a chamada posteridade pudesse ter conhecimento de nada dessas cartas». As razões dessa comoção, talvez, nunca as desvendaremos por completo. O que sabemos é que o processo de ocultação dessa relação e suas revelações começou, de fato, com o próprio Freud ao destruir as cartas que Fliess lhe enviou. Não obstante, a perseguição nazista, o exílio, a retenção dos arquivos de Freud e a censura exercida por Anna Freud, Marie Bonaparte e Ernest Kris também contribuíram para esse velamento. Um destino que talvez tenha obedecido ao desejo de proteger a intimidade e de relegar a um segundo plano a estrutura, os bastidores, mas também à possibilidade de que alguns considerassem essa relação escabrosa, vergonhosa ou digna de ser silenciada. E não só pela singularidade da personalidade de Fliess ou pela disputa pelo roubo de ideias, mas também por se tratar do desdobramento de uma zona intelectual teórica indefinida.


Consequentemente, proponho desdobrar as diferentes versões da origem da psicanálise, para evidenciar como a construção histórica que realizamos repercute no presente e prefigura o porvir. Toda concepção do fundacional acarreta uma dimensão política, com efeitos em nossa prática cotidiana e na configuração do laço social. Espero, ademais, dar a escutar como os conceitos, termos e articulações teóricas adquirem sua autêntica valência através de sua incidência e seus efeitos, para além de sua aparente inocuidade abstrata. Esta empreitada, no entanto, não implica uma busca da ‘verdadeira’ interpretação, como se a questão pudesse ser resolvida em uma competição entre historiadores ou pesquisadores por estabelecer a versão definitiva e acabada. Trata-se, antes, de ler como as sucessivas leituras de Freud constroem e reconfiguram seu legado, e como nós mesmxs, desde nossa posição atual, participamos dessa apropriação ao reinventá-la.


Primeira edição e a versão de seus editores na voz de Kris


O momento da publicação é significativo. No início de 1950, a psicanálise, especialmente nos Estados Unidos, onde Kris era uma figura influente, estava em um processo de consolidação institucional e teórica, sob o influxo hegemônico da psicologia do ego. A publicação desses documentos fundacionais, emoldurados pelo trabalho dos três editores, Bonaparte, Anna Freud e o próprio Kris, serviu para solidificar uma narrativa histórica sobre as origens, ao apresentá-los de uma perspectiva particular e reforçar a legitimidade científica do campo em um momento chave de seu desenvolvimento institucional. A introdução de Kris buscava não só explicar as cartas, mas integrá-las na narrativa prevalecente sobre o desenvolvimento de Freud e a maturação científica da psicanálise. Em seu prefácio lê-se o gesto de desdramatizar a relação Freud/Fliess, de enquadrá-la em um marco de amizade científica e intelectual.


E, ao final deste texto, Kris aborda o conflito do roubo de ideias. Embora omita o litígio, não elude por completo a questão; trata-a, isso sim, contornando a instância jurídica e reduzindo-a aos conflitos de delimitação intelectual que gerou. É também Kris quem refere pela primeira vez que tal ruptura se produziu gradualmente, culminando com o nascimento da psicanálise.


Creio que a posição de Kris não supõe nem fazer dessas cartas uma evidência da origem da psicanálise em sua relação com a amizade, mas de todo modo a reconhece, nem carrega as tintas na autoanálise, nem tampouco no lugar transferencial que neste teria tido Fliess para Freud (embora o mencione de passagem), mas sublinha o processo de uma construção intelectual e científica e suas vicissitudes. Tudo parece indicar que aspirava a uma postura o mais neutra e objetiva, ou menos apaixonada, possível.


A fábula do explorador solitário


A ideia da «autoanálise» de Freud, como se entende comumente, foi sustentada com mais força por Anzieu, principal expoente dessa visão com seus dois volumes de A Autoanálise de Freud e a Descoberta do Inconsciente. As bases foram publicadas em 1959 e depois ampliadas. Essa narrativa apresenta um Freud que descobriu o inconsciente ao perscrutar suas profundezas, sem mediação de outro. Talvez algo do nome revele a questão; a autoanálise supõe uma concepção autoerótica explícita do assunto ou, se quiserem, da relação com o outro, do qual então se pode prescindir ou anular. O procedimento de Anzieu, fiel a seu trabalho acerca do grupo e do inconsciente, não faz uma análise das cartas e da obra de Freud sozinho. Mas empregou um método de «associações livres coletivas»: convocou um conclave de psicanalistas com diferentes níveis de experiência para analisar em conjunto os textos de Freud (sonhos, cartas, publicações). Esse método buscava, por um lado, estimular a invenção interpretativa e, por outro, garantir um controle grupal sobre as fantasias individuais, conciliando assim a criatividade subjetiva com uma busca de objetividade.


A escolha desse método sugere a convicção de Anzieu de que a compreensão da gênese psicanalítica requer a aplicação de seus próprios instrumentos de descoberta aos textos fundacionais de seu criador. Estabelece-se assim um ciclo, enrola-se o novelo, olha-se no espelho, mas não só se olha, interna-se no chamado autoerótico do sentido de si. Um esgotamento por afogamento do narcisismo na reflexividade autoerótica que equivale a analisar a psicanálise com seus métodos.


Anzieu erige sobre a noção de “fato documentado” seu argumento de que a correspondência de Freud com Fliess constituiu o principal veículo através do qual Freud comunicou e elaborou sua autoanálise.
Notam como Anzieu enfatiza o «fato» e o «documentado»? Percebem como subjaz aqui uma concepção do arquivo como documento que ratifica a verdade como um fato consumado, uma espécie de despotismo do dado? Anzieu baseia grande parte de sua reconstrução na minuciosa análise dessas cartas, datadas entre 1887 e 1904. E ao examinar —porque é isso que faz, examinar— os escritos de Freud desse período, torna-se evidente para ele uma distinção crucial entre o processo de descoberta e o produto teórico final. As cartas a Fliess, em sua perspectiva, documentam o processo em tempo real: a exploração, as dúvidas, os entusiasmos, as hipóteses abandonadas, a luta com o material inconsciente. São um testemunho da natureza frequentemente confusa e não linear do trabalho autoanalítico. Insinua-se, desse modo, que Freud se descobriu a si mesmo ao mesmo tempo que descobria a psicanálise. Em contraste, as obras publicadas, como A Interpretação dos Sonhos (1899-1900) ou o artigo Sobre as Lembranças Encobridoras (1899), apresentam o resultado desse processo: a estrutura de suas teorias, a definição de seus conceitos, e a cuidadosa seleção e elaboração de exemplos clínicos ou autoanalíticos destinados a ilustrar e fundamentar sua argumentação. O trabalho de Anzieu, portanto, busca lançar uma ponte entre esses dois tipos de texto. Sua análise tenta reconstruir como, a partir das cartas, essas intuições, fragmentos e lembranças foram se transmutando até ficarem elaborados, conceituados e integrados no corpus teórico publicado da psicanálise. A compreensão dessa dinâmica entre o laboratório epistolar privado e a exposição pública revela-se essencial para seguir a reconstrução que Anzieu propõe.


Implicações e crítica do mito da autoanálise


A narrativa da origem da autoanálise, em sua autossuficiência e necessidade de legitimar a origem da psicanálise como teoria rigorosa, não pode senão comungar com uma concepção linear do tempo, uma origem monolítica e um arquivo como prova irrefutável. Também se trata de uma ficcionalização que forja a imagem de um Freud como herói intelectual isolado do mundo, autônomo e independente de qualquer alteridade.


A autoanálise é uma interpretação que se consolidou com o tempo;
não obstante, ao revisitar esses mesmos arquivos, encontram-se outros rastros salteados ou elididos, mais complexos e contraditórios, onde as próprias palavras de Freud colocam em xeque a própria possibilidade do que ele mesmo denominou, durante um breve período, «autoanálise» ou mais precisamente “análise de si”.


A persistência do mito da autoanálise como origem, apesar desses ditos que aqui não operam como evidência, mas que são contornados, não é casual. Essa versão sustenta uma certa imagem do analista como figura autossuficiente, capaz de perscrutar seu próprio inconsciente sem a mediação de outro. Essa fantasia que prescinde dos outros, no entanto, produz efeitos concretos na formação e na prática analítica, porque ademais fomenta uma concepção da análise como hermenêutica superinterpretativa.


Primeiro, transforma o laço analítico com o analisante, sujeito a um falar repleto de ambiguidades, hesitações e diferenças entre o moi e o je, em uma relação com um analisado cujo discurso se reduz a enunciados interpretáveis de fora. Essa transformação eclipsa a dimensão fundamental da experiência da análise.


Segundo, afasta da análise a divisão entre o que se diz e o que se produz com o dizer. Essa spaltung só pode se sustentar na medida em que o analista às vezes, e apenas esporadicamente, coincide com o sujeito suposto saber e não com quem sabe.


Terceiro, facilita a difusão de vinhetas clínicas que oferecem a miragem de um acesso direto e objetivado ao “analisado”, e ademais a seleção mediante a qual o analista escolhe certos fragmentos da experiência analítica sobre outros. Isso mascara, destrói ou impede uma transmissão da experiência que mostra como um fato analítico se conecta com os fundamentos da psicanálise e os transmite no mesmo ato, sem necessidade de vinhetas clínicas.


Quarto, conduz a uma prática que se baseia em uma concepção realista da análise como adequação da verdade à realidade. Um tipo de interpretação que, segundo Lacan, é desencadeante de actings-out, como demonstrou no caso do «homem dos miolos frescos», precisamente de Ernst Kris. A ficção da autoanálise é consequente com a imposição de uma verdade, poderíamos dizer, e uma concepção linear do tempo que sustenta a tirania dos fatos —sempre escolhidos, sublinhados e reescritos em função de uma leitura que nem sequer se explicita como tal—, e uma concepção da origem como condenação ao presente e ao futuro.


Por último, a concepção da autoanálise nega, oculta, sobrepõe, invisibiliza os lampejos de verdade que surgiram não só de Freud com Fliess, mas de Freud com Brücke, Breuer, Charcot e com muitos outros e muitas outras. Essa concepção, eminentemente hegemônica e de viés dogmático, não só exalta uma autoridade inquestionada, mas, ao fazê-lo, erige um sustento epistemológico que oblitera –e proscreve– toda possibilidade de introduzir ou reconhecer a função cardeal dx amigx e, com isso, a iniludível ambiguidade autoral que lhe é inerente.


A retroprojeção impossível


Octave Mannoni, em seu ensaio A análise original, propõe uma refutação da narrativa da autoanálise sustentada por Ernest Kris e Didier Anzieu. A autoanálise, afirma Mannoni, não é mais que uma miragem, uma ilusão de ótica, já que o próprio Freud sentenciou em 1897 que «a autoanálise é na realidade impossível, pois do contrário não existiria a neurose». Freud, de fato, empregou o termo Selbstanalyse (análise de si) durante um breve lapso de 41 dias, e acrescentou: «Só posso me analisar por meio de um saber objetivo       —que eu interpretaria como um saber objetivado, um saber como aplicação— como se fosse outro».


Para Mannoni, portanto, a relação entre Freud e Fliess não se assemelhou a um diálogo científico entre pares, como insinuava Kris, nem tampouco a uma autoanálise, mas constituiu uma genuína relação transferencial (diferentemente de Anzieu, que omite esse aspecto crucial). Nessa dinâmica, Fliess ocupava para Freud o lugar do «sujeito suposto saber». Freud, consequentemente, adotou de modo inconsciente uma posição de «doente» frente a Fliess, apesar de este carecer de competência tanto médica quanto analítica a respeito das questões que de verdade importavam. Diferentemente de seu vínculo com Breuer, onde Freud sabia o que esperar de seu mentor e vivia sob o regime da separação, com Fliess estabeleceu-se um laço narcisista, uma escolha de objeto narcisista, onde cada um era a imagem narcisista do outro. Em outras palavras, cada um era o duplo do outro, seu reflexo especular. A insistência de Freud em atribuir sempre a Breuer a descoberta do método contrasta, para Mannoni, com sua dificuldade para delimitar suas próprias ideias das de Fliess, a ponto de sua amizade culminar em disputas pela propriedade intelectual.


Assim, a perspectiva de Mannoni nos translada de um afogamento na autorreflexão para um cenário reflexivo onde o outro irrompe como i(a), como imagem especular, como duplo. As descobertas cruciais de Freud, para Mannoni, brotaram no momento em que a relação com Fliess atravessava um período de intensa tensão transferencial, marcado por pseudotranstornos cardíacos e queixas dirigidas a Fliess em seu papel de médico. É nesse contexto que Freud escreve: «Ainda não sei o que me acontece: algo surgido do mais profundo abismo de minha própria neurose se opõe a todo progresso meu no conhecimento das neuroses; e embora não saiba como, você está envolvido nisso». Mannoni interpreta essa frase como um claro indício da transferência analítica, tanto por seu isomorfismo com a dinâmica transferencial quanto pelo conteúdo mesmo de sua afirmação, a neurose.


O critério de Mannoni explicita, em definitivo, que a experiência original não se ajusta às condições de leitura de uma autoanálise, mas a uma relação analítica avant la lettre, onde Fliess, sem sabê-lo nem pretendê-lo, desempenhou um papel que era estrutural e, ao mesmo tempo, necessário. RFreud, portanto —e esta é a medula da tese de Mannoni—, não teria aprendido a psicanálise de Fliess como um discípulo de um mestre, mas a descobriu —ou, mais precisamente, a forjou— na própria frágua de sua relação com ele, na dinâmica viva e produtiva da transferência. A correspondência com Fliess, desse modo, deixa de ser um mero laboratório intelectual e se converte em uma experiência em si mesma. Não se trata mais do balbucio e do esboço da teoria, como para Anzieu, mas do saber inconsciente correlativo a esse processo.

Novos interrogantes

Embora a leitura da análise original de Mannoni represente um progresso na espiritualidade com respeito à noção de autoanálise, não está isenta de problemas. Esses problemas podem ser atribuídos tanto à dificuldade de interpretar o passado a partir do presente quanto aos efeitos que tal leitura suscita neste futuro, assim como à omissão da função da amizade. Soma-se a isso, a meu entender, uma inegável conotação psicopatológica em seu enfoque. A análise de Mannoni, embora supere a ilusão da autossuficiência, levanta novos interrogantes:

I) A retroprojeção da estrutura transferencial analítica sobre uma relação que precedeu a própria invenção da psicanálise é questionável, já que se encontra no passado o que naquele momento ainda não existia. Como costumava dizer Lacan, o coelho só sai da cartola uma vez que foi introduzido nela.

II) Mannoni carrega as tintas do conflito Freud/Fliess na paranoia e em uma relação onde cada um ocupava o lugar de duplo do outro, mas não na prática da amizade. Não no que ocorre em toda amizade que ao compartilhar um brinquedo, um jogo de cartas, um amor, um desejo, um gosto, uma ideia, atravessa problemas de inveja, disputa, propriedade e às vezes de divisão, fruto de uma assimilação que imprime a posteriori um selo singular.

III) O mito da análise original, ao reduzir a origem da psicanálise a uma relação transferencial, elude, em sua formulação, tanto a ruptura epistemológica quanto o novo laço que constituiu essa origem. Antes, projeta na origem uma relação cujos termos lhe são posteriores, e explica essa origem pelo que sobreveio depois, sem dimensionar a mudança radical na posição discursiva e o conflito que aconteceu.

IV) Além de continuar sem tratar a questão mesma da origem, de problematizá-la, de falar do que falamos quando falamos da origem.

V) Finalmente, e este é talvez seu ponto cego mais peculiar, a leitura de Mannoni sobre o outro na relação Freud-Fliess parece restringir-se a dois lugares: o outro como imagem especular –o i(a)– ou como suporte do Sujeito suposto Saber. A omissão fundamental em sua análise é a consideração do outro em sua alteridade irredutível, dimensão que excede essas funções e que vertebra todo laço.

O entre-dois primordial

Proponho, portanto, uma perspectiva alternativa à de Mannoni, sem desdenhar a função do ‘sujeito suposto saber’: sustento que Fliess, mais que um mero confidente intelectual ou um simples amigo no sentido trivializado do termo —como o descreveu Kris—, encarnou a função dx amigx em toda a sua complexidade. Essa função possibilitou em Freud uma leitura inconsciente desse laço, assim como uma metamorfose fundacional da prática analítica a partir da prática da amizade. Desse modo, esta teria sido a condição de possibilidade para a invenção ulterior da transferência analítica. Por sua vez, o objeto transicional não se restringe a um conhecimento específico, mas abarcava a própria experiência e sua tensão desejante; tensão que, com o devir do tempo, se transformaria no dispositivo analítico.  Em outras palavras, a amizade como matriz da psicanálise!

Insisto. A mera afirmação de uma única origem implica já uma concepção mecanicista do tempo e um monopólio sobre a verdade. Conjeturar outra origem possível acarreta a articulação de um campo de relações no interstício entre o agora e o ainda não. Seria, com efeito, uma contradição flagrante e negar seu próprio discurso se a psicanálise não se comprometesse com métodos discursivos que favoreçam a metamorfose e as variações sobre a evidência; métodos que, por sua vez, desafiem o domínio do pensamento mecanicista. Nesse sentido, a busca de outras possibilidades de origem constitui uma estratégia possível para resistir à potencial tirania do fato consumado.

A polarização vital

Longe da ideia de uma psicanálise gestada na solidão, a correspondência entre Freud e Fliess, que se estende ao longo de 17 anos (1887-1904) e compreende 284 cartas, testemunha a influência da prática da amizade em suas origens. Essa correspondência transcende a mera condição de registro histórico. Desdobra-se como um espaço transicional em si mesmo. Uma experiência de pensamento em estado puro. Um campo compartilhado de criação intelectual. Uma conversa essencial, primígena, da qual emergiu a psicanálise.

Fliess, nesse contexto, erigiu-se como um outro privilegiado diante de quem, e com quem, Freud compôs suas ideias sobre a sexualidade, os sonhos e o inconsciente. Mas o fez de uma maneira singular: não se tratou de uma simples exposição de ideias, mas de um processo dinâmico, de um intercâmbio fecundo onde cada elemento surgia da fricção criativa com o outro. Podemos ser testemunhas, consequentemente, do mútuo contrapeso conceitual. De como as ideias se redistribuíam e se escoravam entre ambos. De como os fragmentos se inclinavam e se opunham entre si. O saber que se produzia, portanto, não pertencia com exclusividade a nenhum dos dois; mas se gestava nesse espaço intermediário da correspondência, nesse território liminar que escolhi designar como a função dx amigx, com essas duas combinações a que dá lugar o genitivo objetivo e subjetivo.

No entanto, quando os corpos textuais começavam a divergir, nos poucos momentos de desacordo ou discrepância teórica, não o faziam ambos com a mesma inteireza. Tudo parece indicar, como em uma coreografia que se quebra, que Fliess não pôde tolerar os movimentos de Freud que se afastavam da mimese, do espelho ou do reconhecimento; aqueles movimentos que, como um membro que se emancipa, começavam a desenhar uma trajetória independente das elaborações fliessianas. E talvez, nessa dificuldade para a separação, nesse preciso local onde era necessário soltar o outro, Fliess começou a desdobrar a ideia de roubo de ideias. Roubo que imputou a Freud ao acusá-lo, nesse espelho que parece não ter podido abandonar, de ter vazado sua teoria da dupla sexualidade para outros dois pensadores. Recriando, de maneira refratária, o duplo que ele parecia se fazer fazer para Freud e, em certa dimensão, também Freud para ele.

Etapas da relação Freud-Fliess

A relação Freud-Fliess atravessa distintos momentos que transcorrem pela criação intelectual, que também compete ao saber não sabido, e pela transferência:

Identificação e Admiração (1887-1895): Freud vê em Fliess um alter ego intelectual. Fascina-se com suas teorias, embora hoje sejam consideradas pseudocientíficas. Trata-se, segundo Mannoni, da escolha de objeto narcisista.

Desarrollo teórico y «autoanálisis» (1895-1900): Este es el período de mayor fertilidad. Freud comparte con Fliess sus descubrimientos sobre la histeria, la interpretación de los sueños, el complejo de Edipo. Para Anzieu, la correspondencia es el taller mismo donde se gesta el psicoanálisis. Freud mismo habla de Selbstanalyse, pero tal cosa se comprende mejor como un análisis donde Fliess ocupa el lugar del Sujeto supuesto a saber o, como sostengo en estas páginas, el lugar del amigx.

Tensiones y distanciamiento (1900-1904): A medida que Freud consolida sus propias teorías, la relación se tensa. Surgen desacuerdos teóricos y personales. La publicación de La Interpretación de los Sueños (1900) marca un punto de inflexión.

La acusación de plagio y la ruptura (1903-1904): El episodio en torno a Otto Weininger –y la supuesta filtración, a través de Hermann Swoboda (analizante de Freud), de las ideas de Fliess sobre la bisexualidad precipita el final. Fliess acusa a Freud de traición. Freud niega la acusación, con el argumento de que la idea de la bisexualidad era ya de dominio público. Tras la ruptura entre ambos, nace en Fliess la convicción de que es víctima de un doble plagio. O. Weininger y H. Swoboda –instruido por Freud, de quien fue paciente– le robaron sus ideas. Es el comienzo de un pleito público del que se apodera la prensa, pleito a veces molesto para los biógrafos de Freud y que ha permanecido sin una exposición completa durante mucho tiempo. Entre tanto, Weininger se suicidó. Un cazador de plagios, R. Pfennig, convencido de defender la ciencia contra la metafísica, toma partido por Fliess y vilipendia a sus imitadores. Swoboda intenta un proceso de difamación con Fliess.

Ecos institucionais de uma ruptura

A ruptura entre os dois amigos teve também efeitos institucionais significativos para a psicanálise. É provável que tenha precipitado a criação das reuniões de quarta-feira em Viena, na casa de Freud, em 1902;pelo menos é o que H. Nunberg deixa supor em sua introdução às Atas: “Alguns anos após a ruptura entre Freud e Fliess, o grupo ‘das quartas-feiras’ tornou-se o auditório de que Freud tanto precisava”.
O público dessas reuniões foi, para Freud, o sucessor do “único público” que Fliess encarnou. A designação de um secretário em outubro de 1906, Otto Rank, que redigia as atas da “Sociedade das Quartas-feiras”, provavelmente está relacionada com o assunto do plágio. Essas atas permitiam prevenir todo risco de reivindicação indevida de prioridade a propósito das ideias ou dos trabalhos que ali se expunham, e Freud não era o último a se sentir plagiado. O caráter público que o assunto Weininger-Swoboda tomou a partir de janeiro de 1906 causou uma mudança importante e duradoura no círculo íntimo das quartas-feiras; nesse novo cenário, o laço Freud/Fliess parece ter imposto certas exigências à comunidade em formação, requerimentos que só podiam ser cumpridos através do meticuloso ‘escrito secretarial’. Otto Rank foi o encarregado de assegurar esse procedimento, promovendo a transcrição de intervenções e debates      –onde se consignaria o nome de cada expositor– e assumindo a ulterior correção dos relatórios distribuídos à Sociedade. Ou seja, assegura-se da autoria do que foi dito por cada um e certificado como tal por todos.


Erik Porge, em seu livro Roubo de ideias, reúne pela primeira vez os dados da biografia de Fliess. Ao publicar a tradução da grande defesa de Fliess, Por minha própria causa, juntamente com os textos de Swoboda e Pfennig, Porge traz à luz as peças de um processo que manteve caráter confidencial na história da psicanálise. Mas, tanto quanto Mannoni, sua leitura dos textos mostra com rigor que o sentimento de Fliess de ter sido plagiado tem sua origem nos elementos delirantes de seu sistema. Levado pelo entusiasmo, Freud se nega a vê-los. É com apoio nesse desconhecimento que inventa a psicanálise e elabora sua teoria da paranoia. Suas consequências se fazem sentir ainda hoje. A aguda interrogação de Mannoni em A outra cena, ao explorar a sutil e quase inatingível linha divisória entre o delírio de saber em Fliess e o saber do delírio em Freud, sem dúvida ilumina aspectos cruciais de sua inter-relação. Não obstante, para outra compreensão, é preciso estender a análise para além da dinâmica do delírio em si em direção a outra dimensão liminar fundamental: aquela inerente ao campo da amizade co-criadora que ambos teceram.
Refiro-me a uma zona porosa específica do entre-dois, um espaço de influência mútua e de gestação conceitual compartilhada, que não se reduz à soma de singularidades nem à mera transferência de ideias entre um «delirante» e um «receptor». É justamente essa liminaridade da prática da amizade que com frequência fica omitida nas interpretações. Tal omissão não parece casual; poderia responder a uma tendência a reprimir a complexidade da origem psicanalítica, sobretudo quando a figura de Fliess é introduzida na equação através do prisma quase exclusivo da paranoia. Essa focalização na patologia, embora possa oferecer certas chaves, dificulta consideravelmente o reconhecimento da incidência constitutiva da própria amizade.
Implicaria, com efeito, não só aceitar a profunda e íntima relação de Freud com alguém catalogado como paranoico, mas, de maneira mais fundamental, reconhecer que a psicanálise se nutriu da modulação do discurso de Fliess, através do crisol e da dinâmica desse vínculo. Quando se elude a especificidade desse campo liminar amistoso, a consequência é uma redução significativa: as tensões, ambiguidades e dificuldades inerentes a toda prática de co-criação e à delimitação de ideias em um espaço compartilhado (como a disputa pelo «roubo de ideias») tendem a ser interpretadas de maneira unívoca como meros sintomas da patologia de um dos membros. Desse modo, a amizade, em seu potencial gerador e em seus desafios intrínsecos, fica homologada a um fator de risco ou a uma contingência problemática que é preciso evitar,controlar ou, no melhor dos casos, superar e registrar com cautela, em lugar de ser compreendida como uma matriz produtiva essencial, embora não isenta de conflitividade.


Com isto não pretendo insinuar que a relação entre Freud e Fliess deva erigir-se como modelo ou matriz de toda amizade. Minha intenção é sublinhar que essa amizade existiu, com suas próprias particularidades e singularidades, como ocorre em todos os casos, e que vale a pena explorar e desvendar tal singularidade, já que a própria psicanálise se nutre dela. É fundamental reconhecer que o que no final pôs fim a essa amizade foi a impossibilidade de que cada um exercesse seu próprio pensamento com autonomia.


Uma forma de dividir os «bens» da prática da amizade é, com precisão, a apropriação ilegítima de ideias, a coautoria não reconhecida ou a ambígua resolução que tomaram Borges e Macedonio (da qual falaremos mais adiante). Resulta, por conseguinte, crucial um exame minucioso dos contornos e da textura dessa ideia que Fliess imputa a Freud como objeto de um furto intelectual. Longe de ser um construto teórico polido, a ideia em questão emerge como uma formação apenas incipiente, um germe conceitual cuja natureza oscilante –esse ‘rebater’ incessante– delata a dinâmica tensional própria da umbralidade processual: aquele espaço transicional, instável e fecundo, da amizade co-criadora. Este é um âmbito singular, uma zona porosa onde as atribuições de origem e pertencimento —os nomes próprios— se encontram em suspenso, e onde a função de terceiridade, aquela instância simbólica que poderia arbitrar ou inscrever a propriedade, ainda não opera ou se acha elidida.


A saída desse campo de indistinção primordial, uma saída que se postula não tanto em termos cronológicos ou de um progresso linear, mas como uma resolução lógica da tensão inerente ao compartilhado, efetua-se mediante uma diversidade de modos e artifícios. Esses mecanismos de passagem não se reduzem necessariamente ao drama da imputação de um roubo de ideias, nem tampouco culminam invariavelmente na plena delimitação ou subjetivação da ideia.
Nem sempre se alcança essa inscrição final onde o conceito adquire a marca distintiva de um sujeito particular, em solidariedade com um nome próprio que o ancora e o singulariza. Existem outras derivas, outras formas de precipitação do informe, que talvez atestem de maneira mais fiel a natureza intrínseca desse saber gestado no entre-dois.


A zona porosa e suas derivas


O episódio em torno do conceito de bissexualidade oferece um caso paradigmático para examinar como uma ideia, surgida na umbralidade processual da amizade co-criadora entre Freud e Fliess, transita por esse espaço transicional e busca suas vias de delimitação e eventual apropriação.


A bissexualidade em disputa


Quando Fliess, segundo se narra, comunica a Freud sua concepção sobre a bissexualidade na Páscoa de 1897 durante seu encontro em Nuremberg, o que se introduz nessa zona porosa não é tanto uma teoria acabada, mas um desses germes conceituais destinados a oscilar no campo de indistinção primordial que ambos compartilhavam. A reação de Freud, tal como se plasma em sua carta a Fliess de 14 de novembro de 1897, já insinua a tensão inerente ao compartilhado. Ali, Freud toma a noção, põe-na em relação com suas próprias ideias sobre a repressão e um fator orgânico («Este fator orgânico depende da maneira como se realizou o abandono das zonas sexuais, segundo se tenha efetuado conforme o tipo de desenvolvimento masculino ou feminino, ou não se tenha produzido de nenhuma maneira»), mas sua elaboração revela de imediato uma divergência fundamental: em marcado contraste com Fliess, Freud “renuncia a ver na libido o elemento macho e na repressão o elemento fêmea”. Este primeiro movimento de apropriação e diferenciação, efetuado na ausência de uma ‘terceiridade’ que medeie as atribuições de origem, já prefigura as complexidades e os potenciais conflitos na subjetivação da ideia. Com efeito, a subsequente correspondência mostra como este germe conceitual é elaborado e disputado dentro dessa dinâmica.


Em janeiro de 1898, depois de seu encontro em Breslau, Freud, com um entusiasmo que evidencia a fecundidade desse espaço compartilhado, escreve a Fliess: “Estou na verdade subjugado pela insistência da bissexualidade e considero esta ideia incidente ainda a mais importante para meu tema depois da de defesa”. No entanto, este mesmo Freud se eriça frente à ligação entre bissexualidade e bilateralidade que Fliess estabelece. Aqui se observa não só uma diferença de concepção, mas um indício da luta pela forma e o alcance da ideia que ainda paira entre ambos. A delimitação se apresenta, então, não como um ato puro de descoberta individual, mas como um processo carregado de afeto, identificação e diferenciação no seio do laço de amizade.


A introdução por Fliess de uma nova palavra, Doppelgeschlechtlichkeit, para designar sua concepção, pode ser lida como uma tentativa de inscrever seu «nome próprio» sobre uma ideia que sente já em disputa ou em risco de uma apropriação indiferenciada.

Por sua parte, a dificuldade de Freud para abordar a questão da bissexualidade sem pensar em Fliess, que seguramente o incomoda, atesta a persistência dessa origem compartilhada, dessa marca do entre-dois no conceito. A necessidade de Freud de reconhecer-lhe uma prioridade, ainda que seja para logo tentar apagá-la ou matizá-la, pareceria inscrever-se nesta lógica dos modos e artifícios para sair do campo de indistinção. Assim, o fato de que o nome de Fliess figure de maneira escassa ao tratar Freud da bissexualidade em certos contextos, ou que o próprio Freud reconheça em Psicopatologia… uma vacilação nesse sentido, e inclusive a posterior supressão do «(por W. Fliess)» em edições de Três ensaios… após o litígio de 1906, mais que assinalar estratégias deliberadas de apagamento ou de uma autoafirmação calculada para inscrever a ideia sob sua marca exclusiva, poderiam compreender-se como manifestações de sua permanência mesma nesse território indistinto que ambos compartilhavam. Com efeito, tal zona liminar se define, crucialmente, por uma suspensão da enunciação que impediria a atribuição unívoca e instantânea de ‘nomes próprios’ às ideias em seu estado germinal. Essa característica, longe de ser uma mera carência, é a própria condição que impossibilita –e ao mesmo tempo torna epistemologicamente problemática– toda tentativa de delimitação taxativa e imediata da autoria, abrindo um espaço de ambiguidade produtiva. A nota agregada em 1910, onde Freud registra que Fliess reclamou a «propriedade da ideia de bissexualidade (no sentido de uma dupla sexualidade [Zweigeschlechtlichkeit])”, é outro movimento complexo nesse processo de delimitação e reescrita da origem. O incômodo de Freud, então, não derivaria apenas de uma questão de prioridade cronológica, mas da dificuldade intrínseca de manejar uma noção nascida nessa zona porosa, uma noção que, ao mesmo tempo que a utiliza e a considera crucial, a desconstrói e a diferencia da matriz fliessiana.
Seus esforços para distinguir três sentidos de «masculino» e «feminino» (atividade/passividade, biológico, sociológico) nos Três ensaios (1915), ou sua enumeração das séries de caracteres sexuais no caso da jovem homossexual (1920), podem ser vistos como tentativas de refinar e, de certo modo, tentativas de refinar e transformar conceitualmente a ideia para integrá-la em um terreno teórico que sente mais próprio. A afirmação de que «a masculinidade se volatiliza em atividade e a feminilidade em passividade, o que é demasiado pouco», é ao mesmo tempo uma crítica e uma declaração de independência conceitual. Inclusive seus retornos tardios ao tema, como em Análise finita e infinita (1937), onde recorda e reitera seu desacordo com o ponto de vista de Fliess sobre a bissexualidade como causa da repressão, mostram a persistência desse diálogo, dessa tensão da origem compartilhada.


O fato de que Freud, apesar de negar a sexualização da repressão fliessiana, mantenha o biológico como rocha originária, ou que em O Eu e o Id (1923) atribua a ambivalência parental à bissexualidade originária, revela que essas pontes com as concepções gestadas junto a Fliess nunca se destruíram por completo. A delimitação resulta ser um processo contínuo, uma negociação perpétua com esse outro que foi co-criador.


Freud rechaça a correlação específica de Fliess entre os períodos e a bissexualidade, mas não as noções de periodicidade e bissexualidade tomadas de forma isolada; esta seletividade constitui, pois, outro artifício da delimitação.


As consequências desta saída do espaço transicional foram de grande alcance, afetando Freud, suas futuras relações e a forma como ele mesmo articulou a paranoia. O próprio Freud, em sua carta a Ferenczi de 6 de outubro de 1910, após uma viagem que realizaram juntos à Sicília, plasmou uma frase que parece refletir essa sensação de ter superado uma dificuldade:

«Eu já não tenho nenhuma necessidade desta abertura total da personalidade… Desde o caso Fliess, em cuja superação o Sr. justo me viu ocupado, esta necessidade se extinguiu em mim. Uma parte do investimento homossexual foi retirada e utilizada no acréscimo do meu próprio eu. Triunfei ali onde o paranoico fracassa.»

Isto não implica nem impede que as teorias de Fliess conservem para Freud um lugar em seu discurso e que nunca deixe de nomeá-lo —mais ainda quando se separa dele e de suas teorias, como se essa separação tivesse habilitado e posto em função a questão do nome próprio e do autor. E é certo, não houve outro igual para Freud, nunca mais ninguém ocupou esse lugar para ele, tal como Anna Freud reconhece em 1947: «Meu pai nunca teve outra relação semelhante com um amigo». Também, Lacan, no seminário Livro II, nos permite vislumbrar que mesmo depois da ruptura desta amizade, o que no momento do sonho da injeção de Irma se apresenta para Freud como esse vasto discurso que polariza sua existência —o de Fliess—, prolonga-se como uma conversa fundamental ao longo de toda sua obra.


Mas esta polarização não só operou de maneira positiva, mas também negativa, já que essa ruptura, desencadeada por uma acusação de roubo de ideias —talvez uma das derivas mais conflituosas da saída do território de confluências—, contribuiu para que se apagassem os rastros do laço e da própria amizade em sua relação intrínseca com a origem da psicanálise. Em definitivo, foi uma relação que marcou Freud para sempre.


A potência do transversal


Se ceder às palavras implica ceder, gradualmente, à própria coisa, que ação crucial omitimos quando evitamos pronunciar as palavras amigo, amiga e, mais ainda, quando eludimos a conceituação da amizade como espaço fundacional? Qual é a ética que não exercemos ao não reconhecer essas zonas de co-criação? O que se silencia nesta carência articulatória, não só na historiografia da psicanálise, mas em nossa compreensão da gênese do saber? O que nos impede de reconhecer que a psicanálise, em seu relato de origem, ainda padece deste buraco na nominação, desta dívida com o entre-dois? Assim, pois, frente a este panorama de silêncios e elisões, a interrogação se torna iniludível e pungente: qual é a magnitude do que perdemos –epistêmica, ética, clinicamente– ao nos recusarmos a nomear, e por conseguinte a pensar, a amizade em sua irrecusável função estruturante e originária dentro da psicanálise?


Propor a prática da amizade como um fundamento alternativo, reconhecendo as limitações de certas narrativas sobre a origem e a complexidade da delimitação das ideias nascidas em seu seio, não persegue uma mera revisão. É um gesto que reafirma o compromisso inerente à psicanálise com a transformação e seu firme rechaço ao mecanicismo e às narrativas do gênio solitário. Esta perspectiva responde à necessidade de explorar formas de laço coletivo e transversal que transcendam o poder hierárquico e a centralidade excludente do UNO. E isto, sem evitá-lo, desemboca em uma pluralização enriquecedora, não só das origens, mas das possibilidades futuras do pensamento.


Resgatar a função da amizade do esquecimento, do menosprezo, da redução à paranoia (como uma das «derivas» fracassadas da saída do espaço liminar) converte-se em uma intervenção política no presente da psicanálise. Implica reconhecer que a subjetivação de uma ideia não é só um ato de intelecção individual, mas um processo complexo que se joga na relação com o outro, um processo com formas e maneiras diversas que nem sempre conduzem à propriedade ou apropriação. As implicações desta posição alcançam, inclusive, a prática clínica. Se a amizade, como esse espaço transicional de experimentação, elaboração e saber fazer com os germes conceituais, desempenhou um papel crucial na gênese da psicanálise, por que não poderia ter relevância também na própria experiência analítica?
Isso não implica, certamente, uma ingênua exortação a que o analista se torne ‘amigo’ do analisante. Não obstante, compele a reconhecer –e a teorizar rigorosamente– a potência inerente a essa dimensão do entre-dois transferencial: um espaço privilegiado onde o radicalmente novo pode advir, impulsionando o motor do desejo e catalisando a singularidade irrepetível da elaboração subjetiva. Reconhecer, também, a ausência de terceiridade inerente a certos momentos do vínculo analítico, e a forma como o analisante e o analista saem desses momentos, pode ser iluminador.


Em última instância, considerar a prática da amizade como uma origem reprimida, e analisar suas vicissitudes como as tensões próprias de um campo de indistinção primordial do qual emergem tanto ideias quanto conflitos, constitui uma aposta por uma psicanálise mais flexível, mais atenta à complexidade de nossa época. É uma forma de resistir à tirania do fato consumado e das narrativas unívocas, e de manter a psicanálise em uma tensão criativa com seu passado —incluindo suas origens não totalmente ditas— e seu futuro.
É, também, um reconhecimento de que o saber inconsciente pode surgir daquilo que paira de cá para lá antes de encontrar —ou não— um nome próprio definitivo.



Notas de traducción

1. A utilização de «dx» e «xs» (ex: «dx amigx», «nós mesmxs») é uma manutenção da linguagem inclusiva presente no texto original em espanhol (ex: «amigx», «nosotrxs mismxs»). Esta forma busca evitar o binarismo de gênero e reflete uma escolha estilística e possivelmente política do autor original, preservada na tradução para manter a fidelidade ao texto fonte.

2. O verbo espanhol «pelotear»no contexto original, sugere a ideia de conceitos ou noções que são trocados ou debatidos de forma exploratória, ainda sem uma definição ou apropriação final, como uma bola que é rebatida entre jogadores. As traduções para o português «rebater»  e, em outro momento, a expressão «paira de cá para buscam capturar essa nuance de um pensamento em movimento, ainda não fixado ou formalizado.

3. «Umbralidade processual» é a tradução direta do espanhol «umbralidad procesal». O termo «umbralidade», derivado de «umbral» (em português, «limiar»), parece ser um neologismo ou um conceito técnico no texto original, referindo-se à qualidade ou estado de ser um limiar, uma zona de transição ou passagem dentro de um processo. Sua compreensão é facilitada pelo contexto em que se insere, indicando um espaço-tempo de indefinição e potencialidade.


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